PREZADOS OUVINTES,

Transcorrido o ano de 2024, convém fazer uma revisão de tudo o que ocorreu, para lançarmos luzes sobre o novo ano que se aproxima. 2024 foi um ano marcado por péssimos acontecimentos, como a seca no Amazonas, as queimadas em todo o território nacional, sobretudo no Pantanal, as guerras na Faixa de Gaza e na Ucrânia, a queda do avião que vitimou sessenta e duas pessoas, as enchentes em vários estados da Federação, mas sobretudo aquelas que atingiram e massacraram todo o Rio Grande do Sul. A Natureza está revelando seu estado agonizante, dando-nos o ultimado a uma nova postura, a da preservação do Ambiente, nossa casa comum.

No que atine à economia, sobretudo nos últimos tempos, a instabilidade tomou conta de todos, e a carestia solapa a dignidade dos assalariados e das pessoas de baixa renda. O Mercado, que visa apenas as vantagens lucrativas, não se contenta com pouco e impõe a todos um dever insano, desumano, escravizante. Trabalhar só pela comida assemelha o ser humano a animais de carga. Isso é um grande pecado que clama aos céus por justiça.

No âmbito da política, houve descobertas assustadoras, com a trama que se iniciou há dois anos, para a tomada do poder pela força, desrespeitando-se as decisões das urnas. A vontade soberana do povo, as bases da democracia e o respeito às instituições foram profundamente abalados, de sorte que o ideal de absurdo golpe de estado ainda não morreu. Um atentado ao Supremo se esboçou e terminou em tragédia, quando um homem atado a bombas faleceu em seu intento de perseguir e matar. O golpe esboçado fora descoberto e as consequências ainda estão sendo apuradas. A política passou-nos a impressão de algo muito ruim, de baixo nível ético, de forte interesse pelo poder, sem quaisquer referências ao bem comum.

A sociedade civil, estarrecida, assistiu ao desastre aéreo que vitimou ao menos sessenta e duas pessoas, em Vinhedo, São Paulo. Nos últimos dias, assistimos ao brutal acidente rodoviário, que vitimou quarenta pessoas, em Teófilo Otoni, Minas Gerais. No dia 22, um avião de pequeno porte caiu, em Gramado, no Rio Grande do Sul, matando os dez ocupantes da aeronave, todos de uma mesma família, além de atingir em cheio uma pousada que estava com muitos hóspedes. Uma ponte, entre Maranhão e Tocantins, no mesmo dia, desabou, vitimando ao menos doze pessoas.

Além de revelar as falhas evidentemente humanas, sejam técnicas, ou por omissões econômicas e políticas, em todos esses episódios, uma pergunta se faz ecoar: vale a pena sacrificar tantas pessoas, nas guerras, nas catástrofes evitáveis, nos sinistros por falha ou por ganância? Quanto vale uma vida humana? E a vida no Planeta, até quando se sustentará? A revisão deve ser, também, pessoal: como estou vivendo? O que faço de bom para os outros? Vivo a oração, a fé e a esperança?

Antes de mais nada, temos fé em Deus, fé na vida, fé na retidão de grande parte da humanidade. Não podemos perder a esperança. Ela nos impulsiona a atitudes novas, construtoras de um novo mundo. É preciso, porém, convencermo-nos de que nosso papel é fundamental para as mudanças que pretendemos de agora em diante. Necessitamos de conversão econômica, política, social, religiosa e ecológica. O nosso relacionamento com Deus, com a Natureza, com os outros humanos, e com todos os seres vivos deve-se transformar, a fim de que as novidades que desejamos sejam possíveis de acontecer.

O Jubileu da Esperança, iniciado em Roma no dia 24 último, nos apresenta o desafio de rever nossa postura, em todas as dimensões humanas, para refazermos o caminho cristão da Esperança que não confunde, nem escapa à pessoa de fé. Neste itinerário cristão, aprenderemos a fazer da fé um instrumento a serviço da vida de todos, e não apenas de alguns. Precisamos compreender que fé e vida não se separam; que Fé e Caridade, juntas à Esperança, formam o trio das Virtudes humanas que nos impulsionam à construção de um mundo novo, que passa essencialmente pelo perdão, pela acolhida fraterna.

O ano novo só será novo, se mantivermos acesa a chama da esperança. Para isso, convém nos debruçarmos sobre o Evangelho, Palavra de Vida Eterna, que já tem implicações, neste chão, no agora de nossa existência, nas relações interpessoais e comunitárias, na família e na sociedade. Ano novo, esperança nova, atitudes novas, corações convertidos, despidos do ódio, da polarização de ideias, e repletos de Amor.

Se, durante o Natal, formos capazes de realmente nos converter, no Novo Ano, iniciaremos com atitudes renovadas, marcadas pela Esperança, que não decepciona. Sem essas ferramentas, de nada adiante desejar um feliz ano novo, porque ele continuará velho, ultrapassado, sem força transformadora. Mas, se nos agarramos à fé madura, sem pieguismos, sem fantasias alienantes e melosas, para vivermos pela fé e pela esperança, concretizando na vida os mistérios da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição, o que exigirá a nossa doação incondicional, poderemos encher o peito para dizer: FELIZ ANO NOVO, REPLETO DE ESPERANÇA! Pois, para além dos erros e das dores, está a Esperança que nos aponta para Deus.

 

Feliz Ano Novo.

 

Essa é a nossa opinião.

 

(Veiculado no “Cultura Noticias” do dia i27 de dezembro de 2024)